R$ 174 milhões não formaram nenhum atleta

R$ 174 milhões gastos em projeto de atletismo no RJ não formou nenhum atleta

 

RIO – O governo do Rio repassou, desde 2008, R$ 174 milhões à Federação estadual deAtletismo (Farj) – toda a verba relativa ao programa Rio 2016, que foi encerrado em julho, pegando de surpresa alunos (grande parte crianças carentes) e professores. Marcado por reclamações de atrasos no pagamento de salários e falta de equipamentos, o projeto nada tinha de olímpico segundo o presidente da Farj: “O objetivo era político”, disse Carlos Lancetta, que negou ter tido qualquer contato com a dinheirama.

Vila Olímpica do Mato Alto recebeu visita de Usain Bolt em 2012 - Wilton Junior/Estadão - 23/10/2012

Wilton Junior/Estadão – 23/10/2012
Vila Olímpica do Mato Alto recebeu visita de Usain Bolt em 2012

Já o governo do Rio, por meio da secretaria estadual de Esporte e Lazer, afirmou o contrário: quem administrou os volumosos repasses ao longo dos anos foi a Farj. Perguntada sobre quem gerenciava os recursos, contratava os profissionais e pagava os salários, a secretaria respondeu: “A Farj. A liberação da verba pela secretaria era condicionada à prestação de contas mensal feita pela Farj”. Lancetta retrucou: “Esse dinheiro jamais passou pela federação e tenho como provar isso”.

O montante repassado à Farj pode ser ainda maior. O projeto começou em 2007, mas no site de transparência do governo do Rio só é possível ver os pagamentos detalhados da secretaria a partir de 2008. O valor desde então, R$ 173,8 milhões, é 15 vezes maior que o repassado no mesmo período pelo governo federal à Confederação Brasileira de Atletismo (cerca de R$ 11 milhões), que reúne as 27 federações estaduais.

Apesar do convênio ser com a federação de Atletismo, o projeto compreendia vários esportes. Criado com o nome de “Suderj em forma” na gestão do então secretário estadual de Esportes e hoje prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), o programa mudou de nome em 2010, depois do anúncio da cidade como sede dos Jogos de 2016. À época, o governo anunciou: seu “principal objetivo” seria “descobrir potenciais atletas que poderão competir na Olimpíada de 2016”.

Mas, segundo o presidente da Farj, o objetivo foi outro. “Acho que não era um projeto para revelar talentos, e sim mais com um objetivo político, porque os padrinhos de cada núcleo eram políticos”, disse. “As coisas eram feitas não pela federação, mas por deputados, vereadores, prefeitos.” Uma professora ouvida pelo Estado, que trabalhava como “integradora” no projeto em Nova Iguaçu (RJ), confirmou ter sido levada ao Rio 2016 por um deputado estadual do PMDB, partido do governador Sérgio Cabral.

Em nota, a secretaria de Esportes e Lazer citou exemplos de atletas revelados pelo convênio, como Viviane Soares, que conquistou medalha de prata no Parapan de 2011, nos 100m rasos para deficientes visuais.

ATRASOS
Segundo o governo, cerca de 90% das verbas – ou seja, R$ 156,4 milhões – eram destinadas ao pagamentos dos 4.884 funcionários, que recebiam mensalmente de R$ 364 (“apoio comunitário”, por 12 horas semanais) a R$ 4.212 (“coordenador central”, por 40 horas semanais). Os outros 10% eram para compra de material esportivo, uniformes e “despesas operacionais”.

Apesar do enorme volume destinado ao pagamento dos funcionários, um dos problemas mais comuns ao longo dos últimos anos foi o atraso de salários, como confirmaram todos os professores ouvidos pelo Estado, “Um, dois, três meses, o salário sempre atrasava”, disse Edneida Freire, de 48 anos, que era treinadora de atletismo do núcleo do Maracanã e, desde que o projeto foi cancelado, está trabalhando de graça com outros nove colegas: “Ensinamos crianças carentes, como vamos deixá-las sem atividade? Elas não ganham nada, nem lanche e nem transporte. Os profissionais também não. Quando recebíamos, era só o salário”.

A falta de equipamentos também foi reclamação constante. “Nosso núcleo era só de atletismo e precisávamos de equipamentos específicos, mas, do ‘kit material’ que nos foi entregue, só dava para usar bambolê, colchonete e cone. Depois que o nome do programa mudou para Rio 2016, nunca mais fui atendida nos pedidos de equipamentos”, contou Edneida.

Também em relação ao atraso de salários, Farj e governo do Rio divergem. Em nota, a secretaria de Esporte informou que “a atual gestão”, do secretário André Lazaroni (PMDB), “só pode responder a partir de março de 2013”, desde quando “repassou à federação seis parcelas” – mais de R$ 25 milhões. Antes de Lazaroni e depois de Paes, passou pelo comando da secretaria Márcia Lins, de 2008 a fevereiro de 2013. O presidente da federação, Carlos Lancetta, adota a mesma resposta para todos os assuntos relacionados ao Rio 2016: “A Farj só emprestava o nome. Quem comandava o projeto, fazia pagamentos e todo controle administrativo e financeiro era a secretaria”.

Lancetta confirmou ter pedido o fim do convênio. “Justamente por todos esses problemas: salário atrasado, falta de compromisso, puseram uma porção de pessoas que fugiam ao objetivo do projeto”.

Segundo a secretaria, um novo programa, que será “o maior projeto de esportes da América Latina”, terá início em outubro, com o nome de “Esporte RJ”. Em 3 de setembro, foi lançado edital para escolha das Organizações Sociais que ficarão responsáveis pela gestão.

NÚMEROS

– 150 mil pessoas, de 7 anos até a terceira idade, eram atendidas pelo Rio 2016, segundo o governo do Rio, quando o programa foi encerrado.

– R$ 121 milhões foi repassado pelo governo do Rio à Federação de Atletismo entre 2011 e agosto de 2013. Desde 2008, foram R$ 173,8 milhões.

–  R$ 728 recebia por mês um professor de Ed. Física do programa, por 10 horas de trabalho semanais.
http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,no-atletismo-projeto-no-rj-gasta-r-174-milhoes-e-nao-forma-nenhum-atleta,1074755,0.htm

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