Odebrecht pagou propina de R$ 10 milhões para Janene, diz doleiro

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

O doleiro Alberto Youssef afirmou em sua delação premiada que a Construtora Norberto Odebrecht – novo alvo da Operação Lava Jato – pagou R$ 10 milhões em propina para o ex-deputado federal José Janene (PP-PR), morto em 2010. O valor teria sido depositado no exterior como parte do pagamento total de R$ 20 milhões pelo “acerto” feito em contrato de obra na Refinaria Getúlio Vargas (Repar), no Paraná entre 2005 e 2006.

“Metade da comissão foi paga pela UTC e metade pela empresa Odebrecht”, afirmou Youssef. “A parte da Odebrecht, também de cerca de R$ 10 milhões, foi paga em dólares mediante depósito em uma conta de José Janene em um paraíso fiscal”, afirmou Youssef, ouvido no dia 20 de novembro de 2014.

A UTC Engenharia é outra das 16 empresas acusadas de cartel, nas obras da Petrobrás. Ela era sócia da Odebrecht nesse contrato de cerca de R$ 2 bilhões para obras na Repar, na cidade de Araucária (PR).

A propina de R$ 20 milhões era a cota de 1% que cabia ao PP, via ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, no esquema denunciado pela Lava Jato de arrecadação de até 3% em contratos da Petrobrás, comandado pelo PT, PMDB e PP.

Youssef disse em sua delação que “por volta do ano de 2005/2006 foi solicitado por José Janene que buscasse a verba de um comissionamento da empresa UTC, relativa a uma obra ‘acertada’ na Repar, a qual estava sendo executava em consórcio formado pela UTC e pela Odebrecht”.

Caminho do dinheiro. O doleiro argumentou em sua delação não poder precisar onde a conta foi aberta. Mas estava registrada em nome de Rafael Ângulo Lopez – um dos homens que trabalhavam na lavanderia criada pelo doleiro para lavar dinheiro do PP. Lopez é um dos réus dos processos da Lava Jato.

Youssef afirmou que apesar de estar em outro nome, a conta era “movimentada por José Janene”. Na época, o doleiro era braço direito do ex-deputado – origem das investigações da Lava Jato.

Delator e um dos alvos centrais da Lava Jato, o doleiro disse ter ouvido do próprio Janane, antes de morrer, que ele “estaria respondendo a um processo criminal por conta desse comissionamento pago pela Odebrecht”. O dinheiro, segundo ele, “retornou ao Brasil por contas de doleiros”.

Dinheiro vivo. No caso da UTC, Youssef afirmou que foi o responsável pela movimentação dos valores em espécie. “A parte da comissão devida pela UTC, acertada em R$ 10 milhões foi paga em dez parcelas de R$ 1 milhão em espécie”, afirmou o doleiro.
Os pagamentos teriam sido retirados por ele na sede da empresa, em São Paulo. Outras vezes, “o dinheiro foi entregue pelo funcionário Ednaldo da UTC” no escritório de Youssef, também na capital paulista.

A PF tem os registros desse funcionário, de nome Ednaldo Alves da Silva. Antes da deflagração da Operação Lava Jato, em março de 2014, os investigadores fizeram o monitoramento dos contatos que visitavam o escritório de Youssef, onde eram realizados pagamentos de propina e acertos.

Registro obtido pela PF de visitas a Alberto Youssef de carregador de dinheiro da UTC

Sete executivos e funcionários da UTC/Constran – entre eles dois de seus donos, Ricardo Pessoa e João de Teive Argolo – visitaram o prédio entre 2011 e 2012. Ednaldo, apontado como funcionário, foi o mais assíduo dos visitantes, esteve mais de 12 vezes nesse período. Ele não encontrado para falar sobre o assunto.
Youssef disse “não ter participado da negociação do pagamento dessa comissão”. “Tratada por Ricardo Pessoa, Paulo Roberto Costa e por José Janene.” Ao doleiro, coube “apenas recolher o dinheiro e repassar a parte de Paulo Roberto Costa, do Partido Progressista e de João Genu (ex-assessor do partido)”.
O doleiro afirmou ainda ter recebido 5% da propina – de 1% do total do contrato, referente a cota do PP.

LEIA A ÍNTEGRA DO TERMO DE DELAÇÃO DE ALBERTO YOUSSEF SOBRE PROPINA NA REPAR

COM A PALAVRA, A DEFESA

UTC/CONSTRAN
A UTC/Constran nega pagamentos de propina e qualquer irregularidade nos contratos da Petrobrás. Pessoa é um dos executivos presos desde o dia 14 de novembro de 2014, na sede da PF em Curitiba.

ODEBRECHT
A Odebrecht “nega as alegações caluniosas feitas pelo doleiro”. “Réu confesso em investigação em curso na Justiça Federal do Estado do Paraná.”
“A Odebrecht nega em especial ter feito qualquer pagamento ou depósito em suposta conta de qualquer político, executivo ou ex-executivo da estatal.”

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/odebrecht-pagou-propina-de-r-10-mi-para-janene-diz-doleiro/

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