110 milhões de reais destinados à saúde foram desviados

Leonardo Coutinho, de Cuiabá

A área da saúde tornou-se um dos alvos preferidos dos corruptos. Há dois anos, descobriu-se que uma máfia, que ficou conhecida como a dos vampiros, desviava dinheiro destinado pelo Ministério da Saúde à compra de hemoderivados. Na semana passada, uma operação da Polícia Federal chamada Sanguessuga desbaratou mais uma quadrilha. Desta vez, o roubo, que alcança 110 milhões de reais, ocorreu na compra de mais de 1.000 ambulâncias para prefeituras de seis estados nos últimos cinco anos. A diferença é que os vampiros atuavam diretamente no Ministério da Saúde, enquanto os sanguessugas preferiam agir no Congresso Nacional. Aliciavam parlamentares para incluir emendas de compra de ambulâncias no Orçamento, prefeitos para montar licitações dirigidas e funcionários do alto escalão do governo para liberar rapidamente o dinheiro a ser pago pelas ambulâncias. As propinas eram garantidas com o superfaturamento dos veículos, que chegava a 260% do seu valor. Até agora, já foram presas 47 pessoas. Entre elas estão empresários, doze assessores parlamentares e dois deputados que perderam o mandato nesta legislatura, Bispo Rodrigues, do PL, e Ronivon Santiago, do PP.

A polícia suspeita que outros 51 parlamentares estejam envolvidos com as falcatruas. Entre eles, o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna. O nome desses políticos é recorrente nas escutas instaladas pela Polícia Federal nos telefones dos empresários e assessores parlamentares. As gravações mostram que os assessores usavam seus nomes quando negociavam propina. Apesar disso, ainda não há provas de que esses congressistas participassem diretamente das falcatruas. “Há evidências de que os assessores agiam em nome dos políticos. O que precisamos saber é se isso acontecia com ou sem o consentimento deles”, diz o delegado Tardelli Boaventura, que chefia as apurações. Até agora, os congressistas foram poupados pela polícia porque estão protegidos pela imunidade parlamentar. Na semana passada, o Ministério Público pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para incluí-los nas investigações.

A Polícia Federal não precisou de autorização para investigar os políticos que haviam perdido o mandato parlamentar .– os ex-deputados Bispo Rodrigues, que renunciou depois de ter sido pego no esquema do mensalão, e Ronivon Santiago, cassado por comprar votos na eleição de 2002. Ex-líder do PL na Câmara, Bispo Rodrigues é citado na gravação de uma conversa de dois funcionários do empresário mato-grossense Darci Vedoin, líder da quadrilha. Um deles, Ricardo Waldmann Brasil, é um dos testas-de-ferro de Vedoin na organização. Sua interlocutora é Adriana, empregada do empresário em Cuiabá. No diálogo (veja quadro), Waldmann Brasil revela que deu 9.000 reais ao deputado. Essa escuta fundamentou o pedido de prisão contra Rodrigues. O caso de Ronivon Santiago é ainda mais grave. Ele mesmo foi flagrado trocando telefonemas com integrantes do esquema. Em uma conversa registrada pela polícia em novembro do ano passado (veja quadro), o filho de Darci, Luiz, conta ao pai que a votação do processo de cassação de Ronivon fora adiada. O diálogo sugere que os Vedoin controlariam alguns deputados da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. “Cinco voto (sic) aí é nosso, hein?”, gaba-se Luiz. No dia seguinte, Ronivon liga para Darci Vedoin. O então deputado dispara: “Darci?”. E Vedoin responde: “Fala, meu patrão!”.

Ed Ferreira/AE

Suassuna: o senador empenharia o dinheiro da sua bancada

A quadrilha dos sanguessugas começou a ser montada por Darci Vedoin em 2001, em Cuiabá, sede de sua companhia, a Planam, especializada em comércio de ambulâncias. A princípio, 75 prefeitos de Mato Grosso faziam parte do bando. Com o sucesso da empreitada, a operação foi exportada para outros estados. Uma das maiores conquistas de Vedoin foi emplacar uma de suas funcionárias, Maria da Penha Lino, como assessora do gabinete do ex-ministro da Saúde Saraiva Felipe, do PMDB. Em agosto do ano passado, Maria da Penha passou a ocupar uma função que lhe permitia forçar a liberação das verbas para compra de ambulâncias previstas nas emendas dos parlamentares aliciados. A Polícia Federal já tinha detectado sua participação na máfia e continuou a grampeá-la depois que ela entrou no governo. Uma conversa de Maria da Penha com Luiz Vedoin revela o provável envolvimento do senador Ney Suassuna na quadrilha.

No diálogo, Luiz Vedoin pergunta pelo andamento dos projetos de compra de ambulâncias apresentados pelo senador. Maria da Penha diz que espera a liberação de recursos do Orçamento para pagar os veículos. Conta ainda que Suassuna empenhou os recursos destinados à bancada do PMDB para irrigar o esquema. “Estou esperando para ver se vem mais orçamento, né? (Suassuna) diz (sic) que vinha. Que iria empenhar o dinheiro da bancada”, diz Maria da Penha. Há outros indícios comprometedores contra o senador. Foram presos dois dos seus assessores, Roberto Miranda e Marcelo Carvalho, conhecido como “Marcelo do Ney”. Ambos são íntimos do líder peemedebista. Suassuna os conheceu quando foi ministro da Integração no governo Fernando Henrique Cardoso. Impressionado com a competência deles no contato com os municípios, levou-os para o Senado, onde passaram a cuidar do relacionamento do chefe com os prefeitos. Na semana passada, Suassuna demitiu Roberto Miranda e Marcelo Carvalho.

Grampos telefônicos enrolam também o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), que há cinco anos integra a Mesa Diretora da Câmara. Há dois diálogos comprometedores do filho do empresário, Luiz Vedoin, com funcionários de Capixaba. Em um deles, uma assessora do parlamentar repassa a Luiz uma senha de uso exclusivo do deputado. Com a senha, ele pôde indicar quem seria beneficiado pelas emendas de Capixaba. No outro diálogo, Francisco Machado Filho, um jagunço do deputado, discute a possibilidade de assassinar o jornalista Lucio Vaz, do jornal Correio Braziliense, que havia publicado uma reportagem revelando parte do esquema dos Vedoin em Rondônia (veja o quadro abaixo).

A investigação sobre os sanguessugas teve início depois que a Controladoria-Geral da União identificou superfaturamentos recorrentes nas compras de ambulâncias. As fraudes foram comunicadas ao Ministério Público, que acionou a Polícia Federal. Logo no começo das apurações, os agentes descobriram que as ambulâncias vendidas pela máfia dos sanguessugas não correspondiam às especificações. Muitos dos equipamentos médicos que constavam nos contratos não estavam incluídos nos veículos. Por isso, as ambulâncias valiam, em média, metade do que as prefeituras pagavam por elas. A diferença era embolsada pelos integrantes da quadrilha e distribuída na forma de propinas aos parlamentares e seus assessores. Tal qual os vampiros, os sanguessugas começaram suas operações ainda durante a administração Fernando Henrique Cardoso, mas foi no governo Lula que acharam ambiente propício para expandir seus negócios. Na gestão do petista Humberto Costa, os vampiros se aproximaram do gabinete do ministro da Saúde. Na administração do seu sucessor, Saraiva Felipe, foi a vez de os sanguessugas chegarem lá.

COMO OS SANGUESSUGAS OPERAVAM

O empresário mato-grossense Darci Vedoin inventou, em 2001, um método para vender ambulâncias superfaturadas a prefeituras

1ª ETAPA � Vedoin identificava prefeitos interessados em comprar ambulâncias. Prometia entregar os carros desde que eles entrassem no esquema

2ª ETAPA � Vedoin identificava parlamentares dispostos a incluir emendas no Orçamento da União para comprar suas ambulâncias. Em troca, prometia-lhes propina

3ª ETAPA � Emendas aprovadas, os parlamentares pressionavam a liberação dos recursos no Ministério da Saúde, onde eram auxiliados por uma assessora do ministro

4ª ETAPA � Vedoin superfaturava as ambulâncias e repartia o lucro com os parlamentares e seus assessores

Ana Araujo

O ex-deputado Bispo Rodrigues, do PL: citado pela máfia em acertos de propina

10 DE JANEIRO DE 2006

Conversa entre Ricardo Waldmann Brasil, testa-de-ferro de Darci Vedoin, e Adriana, outra empregada do empresário

Ricardo � Conhece Carlos Rodrigues?
Adriana � Não.
Ricardo � Bispo Carlos Rodrigues, conhece?
Adriana � Bispo Carlos Rodrigues?
Ricardo � É, aqui do Rio de Janeiro. Eu tenho que levar uma encomenda para ele. Ele já me ligou ontem achando que a encomenda está comigo.
Adriana � Eu nem sei quem é não.
Ricardo � Diz para o Luiz (Vedoin) que o bispo ligou para o Ricardo atrás da encomenda dele, mas que o Ricardo não tem essa encomenda na mão.

17 DE JANEIRO DE 2006

Nova conversa de Ricardo Waldmann Brasil com Adriana

Ricardo � Olha só. Aquele depósito já está disponível. São 3 000 (reais) do escritório novo e 9 000 (reais) do Carlos Rodrigues. Isso vai se concretizar hoje.

Exclusivo on-line
Ouça trecho da gravação

17 DE NOVEMBRO DE 2005

Conversa travada por Darci Vedoin com
seu filho Luiz no dia em que a Comissão
de Constituição e Justiça da Câmara adiou
a cassação do deputado Ronivon Santiago

Dida Sampaio/AE

Ronivon: “Põe ele na conta”

Luiz � O Ronivon foi inocentado.
Vedoin � Ah, é?
Luiz � Trinta e três a quinze.
Vedoin � Então, agora tá com tudo.
Luiz � Cinco voto (sic) aí é nosso, hein?
Vedoin � Mas ele sabe disso. Já foi feito o dele?
Luiz � Já foi mandado fazer.
Vedoin � Mas não foi feito ainda, né?
Luiz � Põe ele na conta, pai. Já foi mandado fazer.

Exclusivo on-line
Ouça trecho da gravação

23 DE DEZEMBRO DE 2005

Conversa de Luiz, filho de Darci Vedoin,
com Francisco Machado Filho, assessor
do deputado Nilton Capixaba (PTB-RO)

Dida Sampaio/AE
Divulgação

Capixaba: o chefe do jagunço

Vaz: “Será que ele agüenta?”
Luiz � E o jornalista (Lúcio Vaz, do Correio Braziliense), deu as caras ou não?
Francisco � Ele me falou que tinha chegado lá em Rondônia.
Luiz � E procurou alguém, fez alguma coisa lá?
Francisco � Procurou ninguém não.
Luiz � Podia arrumar um jeito de mandar matar o cara lá. O que você acha?
Francisco � Eu também acho que é uma boa.
Luiz � Vou falar para um amigo meu, três em um lá. Vou ver se esse cara agüenta ficar dez minutos debaixo d’água. Que é que cê acha?
Francisco � Num sei, uai.
Luiz � Será que ele agüenta?
Francisco � Eu acho que não agüenta não.
Luiz � Quinze minutos. Vou ver se ele consegue ficar quinze minutos debaixo d’água.
Francisco � Tá bom, então.

http://veja.abril.com.br/100506/p_056.html

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